Leila
Míccolis se tornou conhecida quando abandonou a advocacia
trabalhista, no final da década de 70, para se dedicar
à poesia e aos ensaios. Ela chegou à televisão
alguns anos depois, escrevendo para o seriado "Caso Verdade"
da Rede Globo, mas foi na TV Manchete que assumiu a responsabilidade
de participar da criação de novelas e de sucessos
como "Kananga do Japão"; "Mania de Querer";
"Mandacaru" e a minissérie "Rainha da
Vida", único trabalho na TV estrelado por Florinda
Bolkan.
1) Como começou a carreira de novelista
e roteirista de Leila Míccolis? Conte-nos um pouco sobre a
sua carreira.
Em
1983. Na época, a Globo tinha um seriado de cinco capítulos,
chamado "Caso Verdade". Li notícias nos jornais sobre
bebê de proveta e mandei um roteiro, "Pais Problemas".
Henrique Martins, que era o diretor do núcleo, (pessoa conscienciosa,
que lia todos os originais que recebia), gostou e comprou. Eu já
tinha certa fama na época, principalmente pela minha poesia,
mas eu sei que, escolhido, não foi o meu nome, mas o meu texto,
e isto me incentivou muito, sempre. Lembro-me muito bem, até
hoje, da pilha de originais que ele me mostrou ter lido, pessoalmente,
para escolher apenas alguns. Henrique era sério, temido por
todos pela sua sisudez e austeridade, e, no entanto, foi uma das pessoas
mais gentis que já encontrei nesta área. O seriado acabou
não indo ao ar, porque era sobre inseminação
artificial, tema considerado pela Censura como impróprio para
o horário das seis, no início da década de 80,
mas a partir daí, as portas começaram a se abrir.
2) O mercado para o roteirista é hoje
muito diferente daquele que existia quando você começou?
Sim,
na década de 80 ainda havia chance de um escritor inédito
entrar para a TV pelo valor de sua obra, sem grandes dificuldades.
Atualmente, as chances são bem menores, até porque o
grupo de escritores de cada núcleo já está formado
e há mais autores do que horários de novelas. Há
pouco li uma matéria informando que 15% dos próprios
escritores fixos estão sendo cortados na Globo. Então,
as dificuldades são bem maiores.
3) E a liberdade de expressão do roteirista
na elaboração de um texto? Ela é maior hoje ou
sempre existiram muitas barreiras?
Há,
e não é de hoje, a "lista negra de textos".
Podem mudar até os temas, mas a lista continua existindo, ou
porque os temas não são interessantes ou pouco comerciáveis
ou demasiadamente polêmicos. Quanto a barreiras sempre existiram
(acho que na época da Ditadura ainda era pior) e, acho sempre
existirão, porque são elas que, dialeticamente, alargam
limites e fronteiras. Sem elas, talvez não avançássemos.
De qualquer forma, não se pode pensar na TV como um veículo
transgressor (até pelo público-alvo a que se dirige,
bastante diversificado). Este papel atualmente é exercido pelo
teatro e pelo cinema, ambos com um tipo de platéia mais homogênea,
ou seja, um receptor mais conscientizado.
4) O que te traz hoje maior prazer: escrever
para a TV, cinema ou teatro?
Escrever
Poesia. A poesia é minha praia, é minha pátria.
Entre os gêneros citados é difícil dizer qual
o mais prazeroso, até porque, de cada roteiro extraio um prazer
diferente, intransferível; por isso cada um, a seu modo, torna-se
incomparável. A alegria que proporciona uma novela, não
é a mesma que sinto com uma peça de teatro ou de um
filme de cinema. De qualquer forma, a TV é mais constante em
minha vida, e eu gosto demais; pode até ser exaustivo, mas,
todo trabalho o é. Há poesias ou peças que requerem
longo tempo até ficarem a contento. O roteiro de "Cassianã",
por exemplo, demorou 11 anos, do momento em que me foi apresentado
até o término (também pela linguagem do sertão
amazonense: impossível de ser desprezada, mas, ao mesmo tempo,
difícil de ser adaptada. Um enorme desafio). Ou seja, em matéria
de criatividade, há sempre que se falar em um processo lento,
por vezes cansativo, mas que sempre vale a pena: construir uma história
do nada, passo a passo, é sempre uma construção
(ironicamente) inenarrável.
5) Qual a melhor receita, se é que
ela existe, para quem está começando a escrever?
Realmente
não existe fórmula única, cada pessoa precisa
conhecer o seu caminho; mas acho que há regras comuns, a
todos, e vou responder baseada na minha experiência pessoal
de autodidata:
1)
Não temer errar (porque
errando que se aprende), não "ter vergonha"
de cometer falhas, só se aprende a escrever, escrevendo
- como todos os outros atos culturais (andar, comer, escrever,
amar);
2)
Ler muito sobre o assunto,
porque a teoria conta bastante. Não adianta você
apenas escrever, é preciso ter consciência do que
escreve, saber formatar e usar todos os recursos que a linguagem
audiovisual permite, no caso da TV.
3)
Exercer uma severa autocrítica
e não desistir: reformular a idéia quantas vezes
for preciso, até estar satisfeita/o com o resultado final.
4)
Registrar sempre as obras,
o primeiro copião, mesmo que ainda não seja o
tratamento definitivo; o esboço da sinopse já
deve ser registrado, para prevenir futuros transtornos.
5)
Ouvir críticas, quando
elas forem construtivas, quando apontarem falhas, através
de uma análise fundamentada. Ao contrário, descartar
simplesmente os "Não gostei", sem qualquer
outro comentário servindo de acompanhamento. De um macarrão
a gente pode dizer simplesmente: não gostei. De uma caixa
d'água, podemos dizer apenas: "não tem nível".
No entanto, de uma obra de arte, o comentário não
pode ser tão simplista, porque o cerne não é
um objeto, mas idéias e vivências humanas.
6)
Por fim, lembrar que não
basta escrever. É preciso saber negociar o que se escreve
- ser firme, mas não ser intransigente - e, no caso de
uma novela, aprender também a lidar com toda a equipe
(os outros co-autores, elenco e produção). O aprendizado
dos bastidores é muitas vezes mais cansativo do que o
próprio ato de escrever, principalmente quando uma novela
não rende o "IBOPE" desejado. É no entanto
também bastante enriquecedor, e já ensejou grandes
obras cinematográficas como "Noite Americana",
dirigido por François Truffaut ou "O Namoradinho",
musical dirigido por Ken Russell. Resumindo: o escritor moderno
não só escreve: atua. É como disse o poeta
Torquato Neto: "escrever é apenas a ponta do iceberg".
6) O que te levou a escrever novelas? E o
que te afastou delas?
Quando
eu abandonei minha profissão - advocacia trabalhista (no fim
dos anos 70) - para viver de literatura, logo aprendi que não
podia apenas sobreviver de poesia ou ensaios (com os quais já
tinha obtido vários prêmios em concursos literários),
precisava aprender a lidar com diversos tipos de roteiros: e passei
a escrever roteiros para revistas de quadrinhos, passei dois ou três
anos na área, e me divertia muito. No entanto, eu era exclusiva
de uma produtora brasileira, cujo dono faleceu, repentinamente, enquanto
estava na praia... Neste momento de total desnorteamento (eu ganhava
muito bem e fiquei, de um minuto para o outro sem qualquer fonte de
renda), soube que o núcleo do "Caso Verdade" estava
aceitando colaborações; quando fui selecionada, o Henrique
Martins me chamou e perguntou: "você já tem alguma
experiência anterior com roteiro?" Quando falei do meu
trabalho, ele disse: "então está explicado".
É que ele tinha ficado impressionado por eu já saber
lidar com o gênero sem nunca ter escrito nada para a TV. Então,
ele me propôs: "você precisa reformular alguns trechos.
Se você aceitar minhas sugestões, compramos seu original,
porque é muito bom". Depois desse trabalho, fiquei algum
tempo sem escrever, porque o Henrique Martins saiu da direção
do núcleo, até que Silvan Paezzo (um grande romancista
brasileiro, autor de "Madame Satã", "Época
dos Tristes" - livros fortíssimos e emocionantes) me convidou
para concluir com ele a novela "Mania de Querer". No mesmo
ano uma produtora independente me chamou para fazer a minissérie
da Florinda Bolkan (aliás, a única atuação
dela na TV brasileira), "Rainha da Vida", e desde então,
pouco a pouco, os convites foram surgindo. Vale voltar à "Mania
de Querer". Entrei na reta final (nos três últimos
meses) e foi um aprendizado e tanto. Além de ter sido a minha
primeira, aprendi com ela a "consertar" novelas (o autor
drasticamente tinha eliminado muitos personagens para aumentar a audiência,
e no final a novela era praticamente outra). A partir daí,
fui chamada diversas vezes pela Manchete para consertar novelas que
iam mal. Mas com o fim da Manchete parei.
7) Que lições te trouxe o sucesso
de "Kananga do Japão" na extinta Manchete?
"Kananga
do Japão" foi maravilhosa, porque, além de
tudo, por parte de minha mãe, eu sou Barata Ribeiro, muito
do universo familiar, das histórias que ela contava, eu coloquei
na novela. Então foi muito gratificante, não só
profissionalmente, como emocionalmente também. Acho que a maior
lição foi esta: poder mesclar realidade e ficção
pessoais em uma obra destinada ao grande público. Sem dúvida
alguma foi a novela que eu mais tive prazer em escrever e que abriu
para a Manchete um horário nobre, confirmado depois por "Pantanal".
A idéia da trama era do Adolfo Bloch, e a sinopse do Carlos
Heitor Cony (figura notável!!!), embora tivesse sido bastante
alterada durante a trajetória do processo criativo, tivemos
que reescrevê-la várias vezes até adequá-la
ao formato que foi levada ao ar.
Também meu parceiro era muito
especial, Wilson Aguiar Filho, falecido meses depois da apresentação
da novela, e eu tinha um relacionamento muito harmonioso com ele.
Sem falar que a direção era de uma cineasta brilhante:
Tizuka Yamazaki. Enfim, "Kananga" deixou saudades,
em todos os sentidos. Fico impressionada com a repercussão
que perdura até hoje, as pessoas - adultos e jovens (crianças
na época) - falam dela ainda, cheias de encantamento. Realmente,
foi uma novela de época mágica.
8) O cinema nacional vive um momento muito
bom com muita gente nova brilhando não só nas telas
como por trás na direção, no roteiro, na montagem.
Você acha que o cinema nacional está encontrando seu
caminho e o seu público? Você já escreveu para
cinema?
Tenho
dois curtas baseados em poemas meus "Oração
infantil" e "Devastação" e
um longa: "Cassianã", adaptação
de um romance premiado nacionalmente: "Dos ditos idos passados
nos acercados do Cassianã", do Paulo Jacob. O livro e
o autor me foram apresentados pelo Milton Gonçalves que tem
paixão pela obra, e contagiou-me também, porque Paulo
escreveu o que chamo de "Os Sertões" moderno (a história
se passa no início do século XX, na Amazônia).
A trama é perfeita e retrata muito bem o Brasil da época
da extração da borracha. No entanto, como toda superprodução,
é difícil de ser viabilizada; mas não perdemos
a esperança e continuamos tentando levar até o público
este épico brasileiro.
Quanto ao início da pergunta, eu acho que o cinema está
ganhando espaço, até porque, começando a ganhar
prestígio no exterior, os investidores sentem-se mais motivados
com isto. Quanto à sua qualidade, sempre teve (quem não
se lembra de "Marvada Carne", "Amuleto de Ogum",
Humberto Mauro, Glauber Rocha, Júlio Bressane, Sylvio Back
- para citar apenas alguns), mas agora ela está aparecendo
mais, justamente porque está havendo mais patrocínio,
fazendo com que ela cresça e apareça.
9) Os grandes novelistas se dizem cansados
de escrever novelas com 200 ou mais capítulos. Você acredita
que é o momento para uma renovação de autores
na TV?
O
problema é que dificilmente as emissoras investem em "novos
talentos", com medo do risco. Afinal, cada capítulo de
novela pode custar até 300 mil reais à empresa, então,
não é um temor inexplicável. Poucas vezes vi
pessoas ousadas nesta área, que apostavam no autor novo: Carlos
Heitor Cony, na TV Manchete, era um destes. Ele chamava o escritor
e, na entrevista, já dizia, de cara, se ele estava ou não
contratado para o trabalho. Era na hora, sem dúvidas ou incertezas.
Se aprovasse, o escritor já ia direto no departamento jurídico
para ler e assinar o contrato. Ele tinha um tino fantástico.
Acho que faltam mais empresários de visão como ele,
ou melhor, com a visão e sensibilidade de um escritor - e,
dos dois, Cony entende de sobra.
10) Qual o futuro da dramaturgia na TV brasileira?
Eu
espero que seja um futuro bem mais promissor do que o atual, com abertura
de núcleos de teledramaturgia para autores nacionais, em todas
as emissoras, ampliando o mercado de trabalho e proporcionando maiores
alternativas para o público, em seus momentos de lazer. No
entanto, simultaneamente, é também importante que o
escritor lute pela profissionalização (como Mário
Prata tem feito), porque, sem ela, continuamos a ser solitários
indivíduos que escrevem, sem consciência de classe, a
mercê de todas as arbitrariedades, sem leis que especificamente
nos protejam. Chega-se ao cúmulo de "escritor e dramaturgo"
não constarem da lei que dispõe sobre as profissões
de Artistas e de Técnicos em Espetáculo de Diversões.
Ou seja: somos contratados (quando vamos dar palestras em Centros
Culturais) como professores ou até como malabaristas, menos
como escritores ou dramaturgos... E, sendo inexistentes, pouco (ou
quase nada) valemos.
11) O que realmente de inovador em termos
de texto para TV surgiu nos últimos tempos?
A
meu ver, como mencionei em resposta anterior, a TV não é
um veículo que se possa chamar de "inovador", não
tem esta pretensão. Em novela, por exemplo, é difícil
você ser vanguardista ou ter propostas de work in progress dentro de um formato relativamente rígido, como o folhetim,
que é o gênero preferido, atualmente. Então, o
texto pode até vestir capas diversas, abordar temas contemporâneos,
mas, no fundo, continua seguindo o percurso conhecido, até
porque, como já ouvi diversas vezes, "time que está
ganhando, não se muda". No entanto, tendo sempre em mente
que a linguagem televisiva é áudio-visual, acho inovadores
os atuais efeitos especiais do "Beijo do Vampiro",
verdadeiramente cinematográficos, criando um precioso subtexto
(que não deixa de ser texto), um diálogo visual com
o roteiro do Antonio Calmon.
12) De todas as obras que você escreveu
até aqui, quais lhe trazem melhores lembranças? E qual
você se arrependeu de escrever, ou pelo menos quando viu o resultado
final, ele não lhe agradou?
Cada
uma é muito querida, pelo que representou. Por exemplo: fazendo
a reformatação de "74.5 - Uma Onda no Ar",
para Portugal (a novela no Brasil foi exibida pela Manchete), entrei
pela primeira fez em uma ilha de edição e acompanhei
a montagem do que eu escrevia, oportunidade rara para um escritor,
que em geral não lida com esta parte; em "Mandacaru",
trabalhei com Walter Avancini, recentemente falecido. No entanto,
"Kananga do Japão" foi a que mais me realizou.
Trabalho
que mais me frustrou? "Pais Problemas", que não
chegou a ser gravado pela Globo, por exigências da Censura.
Queria muito ter tido o privilégio de ver um texto meu dirigido
por Henrique Martins.
13) Um grande novelista, um grande dramaturgo
e um grande diretor na visão de Leila Míccolis.
Um,
personificando todos? Impossível. Podem ser pelo menos três?
Novelistas: Bráulio Pedroso, Manuel Carlos e Aguinaldo Silva.
Dramaturgos: Alcides Nogueira (grande novelista também), Chico
Buarque de Hollanda e Júlio Conte.
Diretores: Miguel Falabella, Marcelo Saback e Cecil Thiré.
14) O que você sempre quis escrever
mas nunca teve oportunidade ou coragem de colocar no papel?
Acho
que já enveredei por quase todos os gêneros. Só
falta mesmo uma autobiografia. Brincadeiras à parte, gostaria
de escrever um romance de mistério, sou fã de Agatha
Christie
15) Quais as novidades que o público
pode esperar nos próximos meses no trabalho de Leila Míccolis?
Estou
com um seriado para uma produção independente de TV
(sitcom) à espera de patrocínio para o piloto;
com o longa do Paulo Jacob (na mesma fase célebre de captação
de recursos); com uma peça de teatro, comédia de costumes,
esta última já em fase de pré-produção,
e com meus próximos livros: um de poesia, outro de crônicas,
viabilizadas nas minhas colunas pela Internet; e mais um terceiro,
de pesquisa sobre imprensa alternativa da década de 60 até
os dias atuais: a "Enciclopédia da Imprensa Brasileira
Alternativa", historiando cerca de 2.000 publicações
do meu acervo, apoio do Governo de Imperatriz/MA, a ser lançado
em novembro deste ano. Escritor que queira sobreviver de sua profissão
sempre trabalha em vários projetos ao mesmo tempo. E acaba
sendo fascinante esta pluralidade de gêneros, estilos e falas.